O que ballet tem a ver com feminismo?

Para começar, tudo. A luta feminista está intrínseca na sociedade. Onde há mulher, o feminismo se faz necessário. No ballet clássico, não seria diferente.

Antes de tudo, vamos entender alguns tópicos importantes e desmitificar algumas coisas: 

  • Resumindo o feminismo: movimento social que luta contra as imposições e ações do machismo, a fim de construir uma sociedade que ofereça igualdade de condições para todes. ✊🏼
  • Feministas não odeiam homens! Eis aqui uma prova viva: eu sou até casada com um! 💁‍♀️
  • Ser feminista não significa apoiar cegamente ou “passar pano” para outra mulher que claramente está fazendo algo errado ou prejudicial à alguém, só porque ela é mulher. Porém, sempre seja a favor do diálogo e da informação – e não do ódio. 
  • Para ser eficaz, o seu feminismo precisa ir além da sua bolha de privilégios e acolher também mulheres pobres, negras e trans. 
  • Feministas podem ser vaidosas e até bailarinas clássicas! Porque as mulheres podem ser o que elas quiserem.😌 Esse é o resumo da luta: termos escolhas e liberdade, e quebrarmos estereótipos generalizados.
  • Existem diversas linhas de pensamento, ideologias e formas de se pensar e viver o Feminismo. Não coloque todas na mesma caixa, escolha aquela com a qual você mais se identifica. O importante é saber que o foco principal é o mesmo: uma sociedade igualitária e com respeito para todes. ✊🏼

Para falar de dança e feminismo, seria necessário muito mais que um post. O intuito deste é somente servir como uma breve introdução e contextualizar, para então nos trazer uma reflexão mais ampla e iniciar um importante debate. Para isso, separei alguns fatos históricos do ballet clássico, pois essas histórias precisam ser disseminadas e descobertas. Ao longo do texto, colocarei também algumas citações importantes – a maioria retirada do livro Little Dancer Aged Fourteen, de Camille Laurens, que apresenta uma vasta pesquisa sobre a Paris do século XIX e a verdade por trás das bailarinas de Edgar Degas, mais precisamente, Marie Geneviève Van Goethem, que modelou para a famosa estatueta Little Dancer Aged Fourteen do artista. Vamos lá?

Réplica da estatueta Little Dancer Aged Fourteen + livro homônimo

Somente em 1681 as mulheres foram finalmente autorizadas a dançar nos grandes palcos. Veja bem: autorizadas,  pois a sociedade patriarcal já nos rotulava como inferiores há muitos e muitos anos e já nos dominava e controlava nossas escolhas. Mademoiselle Lafontaine (1655-1738), uma bailarina francesa, abraçou essa oportunidade e foi considerada a Primeira Bailarina da Ópera de Paris, apesar de críticas e controvérsias. Ela vivia em conventos e se resguardava para não ser julgada como “mulher da vida” só porque era bailarina. Uma mulher transgressora e corajosa! 

“Entre as famílias respeitáveis ​​daquela época, uma mulher que trabalhava já era suspeita de depravação; uma mulher honesta fica em casa. Então, o que você poderia dizer sobre uma atriz ou bailarina? Ela não expressa “a oferta imperiosa de sexo, o chamado fingido da necessidade da prostituição”? ”

Trecho do livro Little Dancer Aged Fourteen, de Camille Laurens

Marie de Camargo, bailarina belga, revolucionou a dança clássica para as mulheres com sua agilidade e “dançando como um homem”, pois aperfeiçoava e executava passos antes somente executados por eles, como o entrechat e o cabriole. Para performa-los com mais eficácia e liberdade, ela encurtou as saias de ballet – e nem preciso dizer que foi julgada por isso, não é mesmo? 

Estudando no curso de História da Dança Clássica da incrível Natália Samarino, ela explicou que foi no século XVIII que surgiu a figura do empresário, que se aproveitava da vulnerabilidade das bailarinas, como explica Jennifer Homans em seu livro tem-que-ler, Anjos de Apolo:

“(…) as bailarinas da Ópera geriam seus próprios rendimentos e desfrutavam de uma invulgar independência, embora, fossem também mais vulneráveis à calúnia, ao abandono e à ruína financeira.”

Jennifer Homans, em Anjos de Apolo

Nessa época surgiu também a famosa competitividade das étoiles, ou seja, das grandes estrelas. As bailarinas eram propositalmente colocadas umas contra as outras pelos homens que estavam no poder. Eis o início dessa rivalidade feminina na dança, da qual tanto acusam nós, mulheres, de termos criado. Esse momento da história vai de encontro às petites rats da Ópera de Paris, que eram oferecidas em troca de dinheiro desde muito jovens, pelas próprias mães, a homens poderosos nos bastidores.

“A Ópera de Paris recrutava “ratinhos” com apenas seis anos de idade. Mais tarde, passariam a ser chamadas de marcheuses, “caminhantes”, porque passavam o tempo todo executando passos, primeiro na aula de dança, depois no palco, onde fariam sua primeira aparição aos treze ou quatorze anos. (…) Théophile Gautier não demorou a zombar do apelido de ‘caminhantes’, o que sugeria a profissão que as adolescentes logo adotariam nas calçadas da cidade.”

Trecho do livro Little Dancer Aged Fourteen, de Camille Laurens

Bronislava Nijinska foi a única coreógrafa mulher da primeira metade do século XX a trabalhar com os recursos de uma grande companhia (o Ballets Russes). O nome não lhe parece familiar à toa: Irmã do famoso Nijinsky, não é de se admirar que tenha menos reconhecimento até hoje pelo simples fato de ser uma coreógrafa mulher. 

Eu poderia contar muitas outras histórias. Taglioni, Pavlova, Plisetskaya, Karsavina, Vaganova, Raven Wilkinson, Ninette de Valois, Mercedes Baptista… Só para citar algumas, pois a lista de bailarinas admiráveis e corajosas por seus feitos e sua determinação em um mundo completamente dominado por homens brancos e poderosos é extensa. Não devemos nunca esquecer o valor dessas mulheres, que estenderam o tapete onde pisamos hoje, mesmo como bailarinas adultas. Gratidão e reverência a elas, pois se hoje ainda é difícil, imagine como foi para elas.

“As classes dominantes precisavam ser tranquilizadas sobre seus privilégios. Não é de admirar que eles se apegassem a teorias que “provavam” a superioridade natural da burguesia sobre a classe trabalhadora, dos ricos sobre os pobres, dos brancos sobre os negros e dos homens sobre as mulheres. ”

Trecho do livro Little Dancer Aged Fourteen, de Camille Laurens

Pode não estar devidamente escrito em livros de história, mas cada fato e mulher que citei acima é um exemplo de luta por liberdade, por respeito e por igualdade. Cada exemplo desses é um pedaço da luta feminista dentro do ballet clássico. Então, se você hoje tem direitos básicos como votar e independência financeira, agradeça à luta feminista. Da mesma forma, se hoje bailarinas não são mais propriedade e brinquedos sexuais de imperadores e políticos, ou “pequenos ratos” humilhados na Opéra de Paris, essas também foram conquistas da luta feminista.

Parece até que já chegamos lá, né? Porém, ainda não. 

E por que o ballet ainda precisa do feminismo?

Porque ainda há muitas histórias nos repertórios contadas apenas por homens, porque ainda há um número inferior de coreógrafas mulheres em companhias, porque ainda há assédio e abusos nos bastidores, porque ainda há uma cobrança exagerada por um padrão ilusório de perfeição especialmente para as mulheres, porque ainda há um número baixíssimo de bailarinas negras em companhias… Porque ontem uma bailarina adolescente foi assediada e ameaçada em um ônibus voltando de uma aula e amanhã pode ser você.

“Durante minha carreira, me disseram que eu precisava fazer sexo com homens, ser mais feminina, ser mais magra, mas não muito magra, ser mais forte, ser mais confiante, ter mais personalidade, mas sempre ficar na linha… a lista continua. (…) Disseram-me para mudar a forma de me vestir, andar e falar. Aos 18 anos, meu diretor me disse que eu precisava ter um namorado e muitas aventuras malucas fora do balé para ser interessante no palco. Ao mesmo tempo, um répétiteur me disse que uma bailarina boa e dedicada deve se comprometer apenas com a dança e passar um mínimo de oito horas diárias no teatro. Sempre me senti em conflito e insegura, incapaz de confiar em meu próprio conhecimento de meu corpo ou em minhas próprias opiniões. O que quer que eu tenha feito, alguém pensou que estava errado ou que não era o suficiente.” –

Trecho traduzido por mim, do artigo “As Ballet Looks Toward Its Future, Let’s Talk About Its Troubling Emotional Demands”, de Suvi Honkanen, para a POINTE Magazine.

8 de Março
Dia Internacional da Mulher
Menos flores, mais respeito.