Sobre ballet adulto, a cor da meia, a disciplina e o respeito.

Sempre que escrevo uma publicação sobre a vestimenta adequada para aulas de ballet independente da idade, recebo algumas mensagens reativas, tanto de bailarinas adultas que não desejam “vestir a bailarina” (por vergonha, medo do preconceito ou inseguranças), quanto de jovens que trazem para a discussão pontos como diversidade e inclusão. Percebi que o assunto requer mais espaço do que uma legenda de Instagram, portanto, resolvi escrever um artigo por aqui, convidando uma das bailarinas que mais admiro na internet para dar um depoimento sobre o assunto: a querida Milena Pontes, do Tutu4Love.

Antes de compartilhar o maravilhoso depoimento da Milena, preciso esclarecer algo muito importante: quando falo de disciplina no uniforme e principalmente em relação ao uso adequado da meia-calça, não estou apoiando a regra antiquada de que ela precisa, obrigatoriamente, ser rosa ou salmão independente da cor da pele da bailarina. Estou apenas defendendo a harmonia das linhas do corpo.

Felizmente, vivemos hoje em uma sociedade que caminha cada vez mais para a inclusão (assim meu lado otimista espera!) e já não é tão raro ver bailarinas negras em destaque e, melhor ainda, reivindicando seu espaço na dança. Alguns exemplos admiráveis são Misty Copeland (American Ballet Theatre), Ingrid Silva (Dance Theatre of Harlem), Francesca Hayward (Royal Ballet) e Precious Adams, que inclusive decidiu e comunicou à sua companhia (o English National Ballet) que não usaria mais meias e sapatilhas rosa/salmão em suas apresentações.

Precious Adams, First Artist do English National Ballet. © 2019 English National Ballet

É um fato que, principalmente nas marcas nacionais, as opções para bailarinas negras ainda são escassas. Porém, olhando pelo lado positivo, algumas das marcas internacionais mais admiradas como a FREED OF LONDON, a Gaynor Minden e a Só Dança USA já possuem em seu catálogo de produtos opções para todos os tons de pele, tanto de meias quanto de sapatilhas de ponta e meia ponta.

Só Dança USA

Eu não tenho lugar de fala para me prolongar sobre o assunto, e nem a solução para melhorar a inclusão de bailarinas negras em grandes companhias. Para solistas e Primeiras Bailarinas, como Adams, não é um problema dançar com meias e sapatilhas da cor da sua pele. Porém, penso que ainda estamos muito distantes de encontrar um equilíbrio para a padronização minuciosa que um Corpo de Baile precisa, por exemplo. Como manter essa característica do ballet com a presença de tantos corpos diferentes, alturas diferentes e cores de pele diferentes? Como padronizar as pernas? Qual o futuro do ballet na sociedade? Como eu disse, eu não tenho a resposta. Não é o meu papel mudar as regras e sim refletir sobre elas, questionar. E realmente penso que passou da hora das grandes (e pequenas) companhias levarem esse diálogo adiante.

FREED OF LONDON

Por isso, não confundam o meu discurso “para sentir-se bailarina, você precisa vestir-se bailarina” com “você precisa usar meia rosa”. Muitas vezes, de fato eu cito a cor da meia que eu uso, que está no meu dia a dia de bailarina, como força de expressão. E confesso que, hoje, tomo mais cuidado nas minhas afirmações. Então, acreditem, sentir-se bailarina nada tem a ver com o tom da sua pele e sim com adotar uma aparência clássica, polida, com coque bem feito e o uso de roupas justas e apropriadas para que a professora (ou professor) possa enxergar o seu encaixe e cada detalhe do seu corpo. E claro, a meia por baixo do collant combinando com a cor da sua sapatilha faz parte desse uniforme. Acredite, isso vai melhorar a sua técnica! Pode parecer uma visão radical, mas o ballet é, de certa forma, radical. É a mais exigente e radical das modalidades de dança! Você não precisa ser bailarina clássica se não quiser. Mas ao se propor a isso, seja a bailarina clássica.

Pode parecer uma visão radical, mas o ballet é, de certa forma, radical. É a mais exigente e radical das modalidades de dança! Você não precisa ser bailarina clássica se não quiser. Mas ao se propor a isso, seja a bailarina clássica.

Não consigo aceitar, por exemplo, quem faz aula com short de aquecimento ou até mesmo casaco, com a desculpa de que “já está em um nível avançado e que por isso não precisa de certas correções”. Deixa eu te contar um segredo: até mesmo em grandes companhias, bailarinos e bailarinas precisam e são, com frequência, corrigidos.

“Ah, mas eles não usam esse uniforme todo certinho que você defende. Elas usam até meia por cima do collant!” Bom, o dia em que eu tiver o nível e a posição da Marianela (talvez em outra vida, quem sabe?), talvez eu me sinta à vontade para usar o que eu quiser em aula. Até lá, eu respeito o meu professor. E mais: eu não passo o dia inteiro em um studio, ensaiando por horas a fio, a ponto de precisar usar a meia por cima para facilitar a ida ao banheiro. Logo, não vou morrer usando a meia por baixo do collant… ;)

Deixa eu te contar um segredo: até mesmo em grandes companhias, bailarinos e bailarinas precisam e são, com frequência, corrigidos.

Na minha visão, disciplina não tem idade. E mais: se você deseja ser incluída e respeitada dentro do universo do ballet sendo bailarina adulta, aja como uma bailarina. É preciso se dar o respeito para ter respeito. Além disso, como comentei em alguns stories, não é educado iniciar em um universo tão antigo e cheio de peculiaridades como ballet clássico e querer ditar suas próprias regras. Esse tipo de atitude não é bacana em atividade alguma, na verdade. Ainda que você faça ballet como hobby, não se engane: ele não está ali para servi-la como você bem entende. E ainda que você queira mudar o que não parece mais correto na dança, antes, você precisa entender aquele mundo. O ballet pode fazer maravilhas por nós, mas precisamos deixá-lo entrar de verdade em nossas vidas.

Mas afinal, qual a história das meias?

Sempre que sou mal-interpretada por defender o uso das meias-calças no ballet clássico, fico imaginando como chegamos até aqui. Qual a história da meia-calça e por que ela se tornou tão fundamental no ballet? Estudei História da Moda na faculdade, constantemente leio livros sobre história da dança, até mesmo pesquisei no Google e, mesmo assim, nunca encontrei respostas satisfatórias ou definitivas. Curiosa, fui perguntar para quem sabe muito mais do que eu; uma verdadeira entusiasta e pesquisadora da história do ballet clássico, Milena Pontes. Em uma troca de áudios por WhatsApp, a bailarina me enviou essa pérola, que agora divido com vocês, para encerrar esse post.

Como não existe um estudo de cada parte da indumentária do ballet, a gente tem que voltar na origem, na corte. Em qualquer imagem que a gente veja, é perceptível que homens e mulheres usavam uma meia grossa por baixo. Com o encurtamento dos tutus, as pessoas passaram a ver o ballet como uma arte não muito respeitosa, digamos assim. Imagine se as bailarinas estivessem sem meias! Acredito que, com o encurtamento dos tutus, as meias engrossaram ainda mais, principalmente para as mulheres não ficarem tão expostas. (…) Outro fato que eu também penso ser importante para a gente pensar em meia-calça de ballet foi a criação da sapatilha de ponta. As pontas foram criadas para simular uma levitação. Então, o raciocínio é claro: elas precisam ser o mais próximas possíveis da cor do nosso pé, para que sejam realmente uma extensão da nossa perna. Mas imagine como era difícil desenvolver algo naquela época que fosse tão parecido com a pele! Então, penso que foi mais fácil adaptar a cor da meia do que a cor dos sapatos de ponta. E aí, a gente chega no conceito da meia seguir o tom da sapatilha. Passando da criação das pontas, com a criação dos “atos brancos”, o ballet se consolidou como uma arte estética, simétrica, ordenada e coordenada. É mais do que compreensível que todas as bailarinas tivessem com o seu ponto focal – as pontas – visualmente uniforme. Mais um ponto para a gente validar o uso das meias de acordo com o tom da sapatilha, independente da cor da pele da bailarina.

Hoje em dia, tem a questão da visibilidade do professor. Ninguém faz ballet para não melhorar, para não ser visto. E a gente tem tanto detalhe, tanta coisa para melhorar… E penso que isso entra um pouco em conflito com o ballet adulto. Eu vejo que muita gente que entra no ballet adulto demora muito a enxergar aquilo para além de um hobby. Muitas encaram o ballet como quem vai para a academia, ou qualquer outra atividade. Mas não é. E isso vai no coque, na meia, no uso do collant. Penso que se você começa o ballet adulto sem pensar em ser o seu melhor a cada dia, é melhor fazer outra coisa. E acredito que o uso das meias entra um pouco nisso. Se algo pode ajudar você a melhorar e ainda assim, você não faz, não está fazendo ballet. O ballet já é tão difícil em tantas coisas! Então tudo o que a gente pode melhorar – e que não nos custa nada, como usar uma meia, fazer um coque bem feito – por que não fazer? Além disso, estamos sempre nos olhando no espelho, tentando nos corrigir… Por que vamos impedir nosso próprio desenvolvimento por algo tão bobo que é usar uma meia que não favorece suas linhas? Você está mascarando os seus problemas. A gente não pode mascarar as coisas no ballet. Se não, não é ballet. Tudo tem que ser visto, examinado e corrigido. _ Milena Pontes, Tutu4Love.

E para fechar, como o professor da Milena brincava: “Toda vez que uma bailarina veste uma meia-calça preta com uma sapatilha rosa, uma fadinha morre”. E como eu acredito em fadas e na beleza do ballet, vou lutar para a sobrevivência de ambos. Quem vem comigo?

Foto em destaque: Christian Louboutin.