Quando meias e sapatilhas são extensões do figurino

No último feriado de Páscoa fiquei em casa, seguindo a quarentena, e aproveitei para assistir a diversos ballets. O Bolshoi havia acabado de disponibilizar O Quebra-Nozes em seu canal do YouTube e, apesar de não ser minha versão favorita, decidi assistir. Eu havia esquecido que o Bolshoi apresenta a cena do Reino dos Doces de forma diferente das demais companhias, principalmente a Dança Espanhola. Fiquei ainda mais impressionada ao ver que meias e sapatilhas da bailarina “espanhola” seguiam exatamente o tom terracota-quase-avermelhado de seu tutu! Lembrei, então, do post “Sobre ballet adulto, a cor da meia, a disciplina e o respeito”, que escrevi aqui no ano passado, com a ajuda da querida Milena Pontes (Tutu4Love). Nele, eu e Milena abordamos muito sobre a função da meia nos uniformes e falamos também da importância da disciplina e da variedade de cores no mercado, para que seja possível atender a todos os tons de pele. Porém, um tópico específico ficou de fora, ou sem muito destaque: o papel das meias (e sapatilhas) na construção de um figurino. Acontece que nem sempre as meias servem para alongar as linhas da bailarina. Em muitos casos, elas também são parte integrante de um contexto, de um figurino em questão. E, pensando nisso, decidi trazer alguns exemplos para complementar o assunto.

Bolshoi – Dança Espanhola do ballet O Quebra Nozes, 2018

Durante o mesmo feriado, assisti novamente ao ballet The Winter’s Tale com o Royal e percebi que, no segundo ato, tanto as meias quanto as sapatilhas da bailarina Sarah Lamb eram de um tom chá mais terroso, opaco e um pouco mais escuro do tom da sua pele. Mesmo assim, combinavam perfeitamente com o vestido roxo e o fato de Perdita, a personagem, ter sido criada em um povoado da extinta Bohemia. Percebe-se que foi uma escolha de cores pensada, calculada. E realmente, uma meia rosada com sapatilha em cetim brilhante não fariam sentido nesse contexto. É muito comum vermos sapatilhas opacas em cenas de povoado com camponesas. No caso de The Winter’s Tale, apesar de eu ter gostado muito da “cartela de cores” final, também faria sentido se Sarah estivesse sem meias, mostrando o real tom da sua pele.

Sarah Lamb as Perdita and Vadim Muntagirov as Florizel in The Winter’s Tale, The Royal Ballet. © 2018, ROH

Da mesma forma, sempre que assistimos ballets que trazem a história de animais mágicos ou fantasmas, como O Lago dos Cisnes ou Giselle, podemos perceber que as meias mais esbranquiçadas fazem parte da construção e do figurino daqueles seres fictícios. E novamente, o brilho (ou falta dele) nas sapatilhas segue a proposta do ballet em questão. Em alguns casos, até as fitas das sapatilhas são disfarçadas, como percebi em uma versão de Giselle da Ópera de Paris, na qual as fitas eram quase invisíveis para o expectador. Nesses casos, sigo me questionando se modificar a cor da meia em função de tons de pele não seria incoerente com a própria história e as características daquele ser que está sendo interpretado.

Artists of The Royal Ballet in Swan Lake, The Royal Ballet © 2018 ROH. Foto de Bill Coope
Nicol Edmonds, Melissa Hamilton and Reece Clarke in Monotones II, The Royal Ballet © 2019 ROH. Foto de Bill Cooper
Artists of The Royal Ballet School in The Cunning Little Vixen, The Royal Ballet © 2019 ROH. Foto de Tristram Kenton
Sarah Lane, Carlos Gonzalez, Blaine Hoven and Misty Copeland. Foto de Doug Gifford

Acima, um outro exemplo (charmoso, até) de meias e sapatilhas coloridas sendo usadas para complementar um figurino. Há meias e sapatilhas verdes ali atrás e, na frente, um bailarino usa meias azuis com sapatilhas pretas e há também somente a sapatilha azul com meias claras, usadas pela bailarina Misty Copeland. Essas escolhas teriam tudo para serem mal-vistas no sentido de “quebrar” as linhas do corpo, por exemplo. Mas no caso de Harlequinade, a proposta funciona muito bem e de acordo com a história. Isso porque tudo depende de um contexto que, quando bem estabelecido, é “sustentado” de forma coerente pelo figurino.

Precisamos sempre lembrar que há muita pesquisa, muito estudo e um longo processo de criação nos bastidores de grandes produções. Uma grande produção de ballet começa muito antes dos ensaios e vai muito além dos bailarinos e coreógrafos. Entre os diversos artistas responsáveis por colocar o resultado final diante de nossos olhos, há designers e figurinistas. E penso que esses também devem ter voz quando falamos sobre o que é usado nos palcos. :)