Uma vida em Londres: a trajetória de uma brasileira que fundou uma escola de dança no Reino Unido.

Eu adoro uma boa história! Principalmente aquelas que contam sobre pessoas determinadas, que correm atrás de seus propósitos e paixões e realizam seus sonhos. Afinal, é possível. E é justamente por isso que compartilho essas histórias, para inspirar quem está no mesmo caminho.

Logo quando comecei a divulgar o mp BALLET TOUR edição Londres, a simpática Aretha Marques entrou em contato comigo através do Instagram de sua escola de danças na cidade. Uma brasileira com uma escola de dança em Londres, que maravilhoso! – pensei. Aretha é das minhas: ela enxergou uma oportunidade de criar junto, de colaborar com um projeto com visão e fazer parte de algo que traria bons frutos para mim e para a sua escola, a SA Dance (Stage Art Dance). Sempre muito solícita e gentil, como boa brasileira, ela me deu dicas, tirou dúvidas e abriu sua escola para a visita do grupo, que fará uma aula de ballet adulto por lá, durante a viagem. <3

Resolvi, então, entrevistar Aretha para descobrir a trajetória por trás de 10 anos de sucesso no Reino Unido. Vem conferir:

Oi, Aretha! Conte um pouco sobre você, sua formação como bailarina e trajetória. 

Minha mãe é professora de ballet e tem sua escola no interior de Minas Gerais. Eu me lembro de acompanha-la no mundo da dança desde pequena. Alguns momentos marcantes na minha infância foram quando ela fez curso com a Lori Belilove (bailarina da terceira geração de Isadora Duncan) – e fiquei encantada com a liberdade de expressão –, quando conhecemos Mikhail Baryshnikov no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e quando, aos 7 anos, eu pedi para coreografar o final de uma dança – pois eu sempre soube que a minha grande paixão era coreografar e ensinar. 


Durante o Ensino Secundário fiz o curso técnico na Rose Ballet School, atuei como bailarina na Companhia de Dança Contemporânea da PUC-Campinas,  na companhia de Cristiane Matallo e na Open Jazz. Quando morei nos Estados Unidos, trabalhei na Walt Disney World, ministrei aulas de dança em resorts e fiz cursos em Nova York na Steps, Broadway Dance Centre e Alvin Ailey. Em 2004 mudei para Londres, dancei, estudei e me formei como professora pela IDTA – International Dance Teachers Association em Ballet Clássico –, NATD em Dança Contemporânea, PBT Progressive Ballet Technique, TOTALBARRE, STTOT Pilates e agora estou me aprofundando na metodologia Americana de Ballet através do IBC Curriculum.  

Em 2012 tive o privilegio de ser selecionada para fazer parte de um projeto do English National Ballet junto com Wayne Macgregor, foi uma experiencia única!

Quando eu estava na universidade, uma lesão no joelho, seguida de uma operação, fez que eu me interessasse mais pela ciência do movimento, pelo estudo sobre a formação da musculatura e pela saúde mental de um bailarino. E são esses três assuntos que me fazem a cada dia mais buscar respostas para moldar bailarinos/bailarinas para os desafios dos novos tempos. 

Acima, da esquerda para a direita:
Primeira foto: “Este meu aluno começou comigo e hoje faz a High School of Ballet no Young Dancers Academy, da Anna du Boison, e já dançou Les Sylphides com English National Ballet. A Young Dancers Academy é uma escola de ensino secundária para bailarinos talentosos que desejam seguir carreira no ballet.
Segunda foto: Eu e minha filha após a apresentação.
Terceira foto: Eu, minha mãe no meio e a aluna que aprendeu com ela e hoje é professora na escola dela. Uma foto com história!
Quarta foto: todas as alunas com Distinction no exame IDTA e duas selecionadas para o Internacional Dancers Award do IDTA.

Como e por que você chegou a Londres? Foi desafiador o processo de montar uma escola fora do Brasil? 

Eu já havia morado no Canadá e Estados Unidos, e não imaginava que iria gostar de Londres, mas me encantei. Foi na época que eu estava machucada e não podia dançar. Quanto mais espetáculos assistia, mais eu contava os dias para operar meu joelho. Após a operação e recuperação eu fui aos poucos voltando às aulas na Pineapple, Danceworks, na The Place e fiz muito Pilates. 

Para trabalhar como professora de dança no UK, você precisa ter a qualificação como professora do estilo que quer ensinar e a partir dai terá um seguro para poder atuar, tem também que fazer parte de uma associação para preparar os alunos para os exames, ter a licença para uso de músicas e também um documento para comprovar que o antecedente criminal é limpo. 

Durante o curso no UK eu já comecei a atuar como professora e alguns meses depois, comecei com uma escola. A escola foi crescendo, aos poucos, pois como eu não conhecia muito o mercado inglês e a mentalidade em relação a educação da dança, fui com cautela. Hoje, finalmente estamos num local maravilhoso, profissional, com excelentes professores e alunos dedicados.

O grande desafio foi com certeza ter nascido em outro país, mas acho que isso também foi o que fez a escola crescer, pois nós brasileiros agarramos com tudo, somos dedicados e somos calorosos!

Você já está há 15 anos em Londres. Qual o segredo, na sua opinião, para manter uma escola como a S.A Dance? Ser brasileira fez alguma diferença na hora de se estabelecer um negócio fora do país? 

Sim, penso que a minha escola é diferente das outras por eu ser brasileira. A nossa paixão pela dança é contagiante, somos hardworking e somos um povo criativo! E acho que em qualquer profissão que escolhermos temos que ser apaixonados e não ter medo de dedicar uma grande parte da nossa vida. Eu trabalho muito, todo dia, e vivo a dança, assisto espetáculos, estou sempre reciclando, fazendo cursos. Não podemos parar no tempo, principalmente aqui, onde tudo voa, temos que estar antenados com relação à evolução da dança e das pesquisas; em relação ao movimento, artes e ciência do corpo.


Conte um pouco pra gente sobre a diferença entre brasileiros e ingleses quanto ao aprendizado, às atitudes e comprometimento no mundo da dança.

Vou contar um pouco das dificuldades que temos por aqui. 
Em Londres existem muitas oportunidades e muitos alunos acabam fazendo muitas atividades – o que dificulta o foco, afeta a energia e o desenvolvimento. O primeiro choque que tive foram as aulas de 30 minutos, e somente uma vez por semana. Chocante, não acham? Sim, existe! Aos poucos fui explicando aos pais e alunos que a partir de um determinado nível é necessário fazer ao menos duas vezes por semana para o rendimento. E ainda estou trabalhando em cima disso, mas logo chegaremos lá. Conseguir marcar ensaios além de aulas é bem difícil pois todos são muito atarefados e a escola aqui cobra muito de cada aluno, ficam de manhã e à tarde desde os 5 anos!

Mas o que acho mais complicado é o excesso de cautela que algumas escolas aqui possuem em relação ao progresso dos alunos, e sinto que existe uma cultura de segurar o desenvolvimento com a qual eu não concordo, pois se um aluno tem os músculos e a capacidade devemos, sim, motivá-los para buscarem mais e descobrirem do que são capazes.

Já fazem 15 anos que saí do Brasil, não sei dizer como se encaixa a educação da dança no momento, mas quando eu estudei, lembro de horas de aulas, ensaios, muita dedicação, muitas coreografias e figurinos. Acredito que, em qualquer profissão, a prática e a experiência são o que nos leva ao sucesso. Por isso sou muito grata de ter tido a base no Brasil. 

Mas o que acho maravilhoso aqui é o reconhecimento e respeito ao artista, ao professor, a arte, algo que não senti no Brasil (há anos atrás).

Adoro que a profissão seja regulamentada, adoro as regrinhas todas para tudo ser correto, o ensinamento desde muito cedo a agradecer o professor ao final da aula, a confiança pelo trabalho e todas as oportunidades – que são muitas. 

Dando aula de contemporâneo.

A S.A Dance possui professores renomados. Cite alguns deles pra gente? E quais as especialidades da escola e o método de ballet que vocês utilizam? 

Temos professores do mundo todo, acredito que cada um tem algo especial a acrescentar e no mundo de hoje é importante termos pessoas com experiências internacionais e multiculturais. 

Nossas professoras são:

Sara Larsson, especialista em dança contemporânea, sueca que estudou dança na Universidade de São Diego.

Giuliana Caiazzo especialista em Ballet formada pela RAD, estudou Vaganova e Cechetti, italiana e já dançou ao lado da queridíssima Darcey Bussell no evento da RAD para o aniversário da Rainha. 

Lauren Ferreira canta, dança e atua. Formada pela Principal Academy of Dance in Western Australia e recentemente foi a Sininho em Peter Pan na The Sunderland Empire.

Natasha Trigg, especialista em Ballet e Contemporâneo. Foi bailarina do English National Ballet, The Saratosa Ballet Company na Flórida, dentre outras.

Laurie Parks, graduada pela Masters Performing Arts no UK. Estudou na Bird College e na Masters Performing Arts, graduando com diploma em Dança e Teatro Musical. Ela também é especialista em aerial (Tecido) e teatro.

Oferecemos aulas de Ballet, Jazz, Contemporâneo e Sapateado para crianças a partir de 2 anos até a idade adulta e estamos localizados dentro da University of West London, a universidade onde Freddy Mercury estudou. As aulas de ballet na S.A Dance começaram apenas há 6 anos. Então, acredito que conseguimos atingir muito em bem pouco tempo! Nossas aulas de Ballet infantil são pelo método de examinação IDTA e também temos aulas livres.

A escola possui algum tipo de intercâmbio de estudos para bailarinos brasileiros?

Estamos estudando as possibilidades e vocês serão os primeiros a saber!

Por fim, o que você mais ama em Londres e o que você sente mais falta do Brasil? 

Amo o respeito a arte, o respeito aos professores, as oportunidades. Por exemplo, quarta passada pela manhã eu estava assistindo um ex-aluno bailarino em ensaio. Logo após fui para o curso de metodologia Americana e, no fim do dia, estava assistindo os alunos do Junior Associates do Royal Ballet no White Lodge, um insight a três diferentes métodos de ensino do Ballet clássico. Outro dia, estava no Coliseum assistindo ao ensaio do Ivan Putrov com Marcelo Gomes, Mayara Magri e várias outras estrelas do Ballet. Aqui se respira arte. 

O que mais sinto falta do Brasil é o sol, a família e colher uma jaboticaba docinha no pé da árvore. 

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